Sabemos que o consumo mundial de produtos têxteis duplicou nos últimos 20 anos. E sabemos que o tempo de vida das peças diminuiu bastante nesse mesmo período (1). O resultado é um volume crescente de desperdício têxtil, sendo que a maior parte deste material não é sequer recolhido seletivamente.
A necessidade de abrandar o fluxo de têxtil na economia impõe-se como uma evidência. A Humana Portugal, ao recolher e ao promover a reutilização deste recurso, está a contribuir para isso mesmo. Os nossos processos permitem colocar 60% das peças que recolhemos em novas mãos, dando-lhes de imediato uma segunda vida.
Do restante, tudo o que não é impróprio é vendido a recicladores. A reciclagem é o destino de 33% do que recolhemos. Teoricamente, estes materiais serviriam de input para produzir novos têxteis. Na prática, é um pouco mais complicado do que isso.
Hoje, Dia Mundial da Reciclagem, olhamos para a realidade desta prática no setor têxtil. O que significa hoje reciclar? Que papel têm – e poderão vir a ter – as tecnologias de reciclagem na promoção da sustentabilidade na indústria do vestuário? Em resposta a estas perguntas, reunimos alguns factos e reflexões.
1. Muito pouca fibra reciclada provem de resíduos têxteis
Vamos encontrando no mercado peças de roupa feitas, pelo menos em parte, de fibras ditas recicladas. No entanto, a maior parte desse conteúdo reciclado não tem na sua origem resíduos têxteis mas sim resíduos de embalagens. O poliéster reciclado é feito principalmente a partir de garrafas PET usadas. (2)
2. A taxa de reciclagem de fibra para fibra é de cerca de 1%
Produzir novo fio a partir de tecidos já existentes? Parece a definição de reciclagem, mas é na verdade um processo bastante excecional na indústria têxtil. Apenas 1% do fio é produzido assim. Isto significa que a esmagadora maioria dos têxteis encaminhados para reciclagem entram em processos produtivos de outras indústrias que não a têxtil. São utilizados no fabrico de produtos de menor valor – aquilo a que se chama downcycling (3).
3. A Europa quase não recicla têxtil usado
Dentro das fronteiras comuns há unidades de reciclagem, sim; mas o input destas fábricas é sobretudo desperdício pré-consumo, ou seja, sobras dos processos produtivos da indústria têxtil e de confeção. O processamento destes desperdícios dá origem, nomeadamente, a materiais de isolamento térmico e acústico, utilizados pela indústria automóvel e da construção.
4. É na Ásia que se concentra a atual indústria de reciclagem pós-consumo
A Ásia recebe quantidades crescentes de têxteis usados com origem na Europa (4). Boa parte destes têxteis são reciclados localmente, sendo sobretudo transformados em trapos industriais ou enchimentos. Karachi, a maior cidade do Paquistão, é um hub de triagem e reciclagem importante. Em Panipat, a norte de Nova Deli, na Índia, a reciclagem têxtil é a principal atividade económica. Exemplos de produtos aqui fabricados a partir de fibras recicladas: tapetes, cortinas, colchas e cobertores militares. (5)(6)
5. Quanto mais puro o material, mais reciclável é
A reciclagem será tanto mais viável quanto os fluxos de materiais forem puros e consistentes. O ideal são peças monomateriais (100% uma só fibra), da mesma cor, com a menor diversidade possível. Quando não é assim, os processos de reciclagem tornam-se potencialmente mais poluentes, menos competitivos ou tecnicamente impraticáveis. (7)
6. A reciclagem mecânica degrada a qualidade das fibras, mas está a evoluir
A reciclagem mecânica é o único tipo de reciclagem praticado em larga escala em todo o mundo. Após a remoção de acessórios como fechos e botões, os têxteis são triturados em máquinas (as chamadas esfarrapadeiras); a ação mecânica permite obter novas fibras têxteis, mas estas fibras são de tamanho consideravelmente inferior às virgens, o que faz com que a resistência dos têxteis elaborados a partir delas seja menor. É por isso que a maioria das aplicações acontece fora da indústria têxtil (os tais painéis de isolamento) ou resulta em produtos mais grosseiros (ex. cobertores). Este problema pode ser mitigado através da adição de uma percentagem de fibras virgens. Tecnologias emergentes (soft recycling) estão a permitir obter fibras de maior qualidade no final do processo. (8)
7. A reciclagem química ainda não existe à escala comercial
Por reciclagem química entendem-se diferentes tecnologias que têm em comum a utilização de solventes químicos e/ou processos hidrotérmicos, permitindo a obtenção de fibras com qualidade semelhante às virgens. Estas tecnologias ainda não funcionam à escala comercial, mas estão em rápido desenvolvimento. São prometedoras, mas têm um aspeto negativo: implicam um consumo energético bastante superior ao dos processos mecânicos. (8)
O que nos dizem estes dados?
A reciclagem apresenta ainda muitas limitações técnicas e económicas. Mesmo com consideráveis avanços, estas tecnologias poderão contribuir apenas parcialmente para a circularidade dos materiais têxteis.
As estratégias fundamentais de uma verdadeira economia circular no setor são a suficiência, a durabilidade e a reutilização. Ou seja: a desaceleração da produção e do consumo; uma manufatura de alta qualidade material e estética que assegure uma vida longa a cada peça; e processos que assegurem a reparação e reutilização dos artigos por outras pessoas quando estes deixarem de ser úteis para os primeiros donos.
A Europa está a avançar a passos largos para a implementação generalizada de sistemas de recolha seletiva de produtos têxteis em fim de vida. Isto é crucial, dado que mais de 60% deste material é descartado de forma indiferenciada e acaba em incineração ou aterro (em Portugal, apesar de não existirem números oficiais, a percentagem será significativamente superior). Porque passaremos, desejavelmente, a recolher mais têxtil, é importante dispor de oportunidades para o valorizar. De preferência dentro das fronteiras da Europa – até pela pegada ambiental decorrente do transporte. Por isso, apesar de ser ilusório olhar para a reciclagem como uma panaceia, é de extrema importância que esta fileira se desenvolva – e que sejamos capazes, em Portugal também, de reciclar roupa usada.
No que diz respeito à recolha, triagem e processamento – atividades essenciais para que tudo isto funcione – a Humana continua a desenvolver capacidade e processos para ajudar a fechar o ciclo do têxtil.
Fontes
(1) Shirvanimoghaddam, K., B. Motamed, S. Ramakrishna, M. Naebe (2020), “Death by waste: Fashion and textile circular economy case”, Science of The Total Environment, Volume 718
(2) Zero Waste Europe (2023), Beyond Circular Fashion
(3) Ellen MacArthur Foundation (2017), A new textiles economy: Redesigning fashion’s future
(4) European Environment Agency (2023), EU exports of used textiles in Europe’s circular Economy
(5) Fibre2Fashion (2023), Textile Recycling: Meaning, Need and Challenges
(6) Garson and Shaw (2019), Exploring the benefits of the growing Used Textile Recycling Industry located in the Karachi Export Processing Zone in Pakistan
(7) Becker, A., J. Thiel, C. Schöpe e T. Gries (2022), Current challenges and solutions for the recycling of (mixed) synthetic textiles
(8) McKinsey & Company (2022), Scaling textile recycling in Europe – turning waste into value







