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Abrandar e reutilizar, o grande repto do têxtil

Nov 19, 2024 | Ambiente, Reutilização

Neste evento organizado pela Humana em parceria com a ZERO, concluímos que é fundamental desacelerar a máquina de produção mundial, e fabricar roupa que as pessoas queiram usar por muito tempo.

A recolha seletiva de têxtil usado, que passa a ser obrigatória em Portugal a partir de 1 de janeiro de 2025, foi o mote um evento dedicado à “Economia Circular dos Têxteis”, que decorreu na Fundação Cidade de Lisboa no dia 8 de novembro.

Andreia Barbosa, responsável de economia circular da Humana, abriu os trabalhos com uma “introdução ao mercado global de vestuário usado”. Seguiu-se Fernando Hin Júnior, Coordenador do Centro de Desenvolvimento Empresarial da Associação Comercial da Beira (Moçambique), que apresentou um retrato do comércio de roupa de segunda mão no seu país.

Seguiu-se uma mesa redonda em que participaram, para além destes dois oradores, Susana Fonseca (Vice-Presidente da Zero), Victor Vieira, Especialista de Circularidade (Lisboa E-Nova) e Irene Maldini, Investigadora em Design Sustentável e Políticas Públicas (Oslo Metropolitan University). O debate foi animado, contando também com questões do público.

Deixamos uma síntese das principais ideias que marcaram o evento:

Obrigatoriedade da recolha seletiva de têxtil usado a partir de 1 de janeiro de 2025: o principal desafio é a capacidade dos municípios para assegurar o serviço de recolha e processamento dos têxteis. Há um hiato entre esta obrigatoriedade e a operacionalização do esquema de responsabilidade alargada do produtor, que permitirá obter financiamento dos produtores para financiar estas atividades – a RAP só deverá estar a funcionar em 2027.

A cadeia de valor global do vestuário em segunda mão: a Europa continua a ser a principal região exportadora, África o principal recetor, e a China destaca-se cada vez mais como grande exportador mundial.

Benefícios socioeconómicos do setor do vestuário de segunda mão em África: a intervenção de Fernando Hin Júnior, representante da Associação Comercial da Beira (Moçambique) deixou claro que o comércio de vestuário em segunda mão tem um peso importante na criação de emprego e na economia do país, para além de proporcionar vestuário variado a preços acessíveis a vastas camadas da população que vivem com rendimentos muito baixos. Foi identificada a oportunidade de desenvolver a capacidade de triagem de têxteis usados no país, para adicionar mais valor à mercadoria importada e melhorar a gestão de têxteis considerados não vendáveis nos mercados locais.

Circularidade global dos têxteis: a cooperação com África, enquanto grande mercado de têxteis e calçado usados provenientes da Europa e do resto do mundo, é essencial para promover a circularidade global. O setor gera importantes benefícios socioeconómicos e, com as políticas certas, pode ser uma alavanca para o desenvolvimento sustentável no Sul Global.

A sobreprodução como principal problema de sustentabilidade da indústria têxtil: o modelo de sobreprodução de roupa barata de baixa qualidade e à base de fibras sintéticas foi apontado como o principal problema a solucionar, tanto pela investigadora Irene Maldini como pela vice-presidente da ZERO, Susana Fonseca.

Os desafios do combate à sobreprodução através de políticas públicas: evocaram-se ideias propostas por diferentes organizações, como quotas de produção e taxas sobre as matérias primas virgens, sobretudo de origem fóssil, para tentar abrandar a indústria. A Responsabilidade Alargada do Produtor, se aplicar o princípio da ecomodulação, pode ajudar – exigindo contribuições mais elevadas a quem coloque no mercado roupas cujas características e processo de fabrico sejam mais poluentes.

Práticas de promoção da reutilização e reparação implementadas noutros países, inspiradoras para Portugal: Victor Vieira, da Lisboa E-Nova, referiu exemplos da Dinamarca e da Finlândia. Em Copenhaga existe uma rede de pontos de troca de roupa na cidade, onde é possível deixar e sobretudo levar peças gratuitamente. Em Malmö, os centros comerciais começam a ter espaços dedicados à reparação e reutilização, nomeadamente de vestuário, e desta forma os cidadãos encontram alternativas ao consumo clássico em pontos nevrálgicos de atividade comercial e cultural.

Victor Vieira (Lisboa e-nova), Susana Fonseca (ZERO), Fernando Hin Júnior (ACB), Irene Maldini (Oslomet) e Andreia Barbosa (Humana)