Nos últimos anos, várias publicações vieram questionar o destino das peças de roupa quando depositadas num contentor de recolha seletiva. Neles, vemos espelhado um cenário em que estas peças acabam por ser exportadas, sem qualquer critério, e descartadas em praias ou aterros em países africanos, sem reutilização válida e prejudicando gravemente o meio ambiente.
No Dia Mundial da Reciclagem a Humana, com 27 anos de experiência em gestão e exportação de têxteis usados em Portugal, reconhece a existência de um grave problema de gestão de resíduos a nível global e um problema ambiental gerado pelos têxteis em determinadas localizações de África, e mostra-se preocupada com “os efeitos deste problema na perceção e reputação do mercado global de roupa usada”, diz Andreia Barbosa, Responsável de Relações Institucionais da Humana Portugal: “Com informações baseadas em algum sensacionalismo e sem uma análise mais profunda, corremos o risco de que a população fique com a ideia de que enviar roupa usada para África é condenável e deve ser evitado”, acrescenta.
Na tentativa de denunciar a indústria de fast fashion e o modelo linear de sobreprodução, consumo e descarte, uma visão unilateral do problema prejudica o trabalho desenvolvido pelas entidades gestoras do setor do vestuário em segunda mão, que diariamente põem em prática processos profissionais de gestão para garantir que estas peças não acabam em aterros ou incineradas, prejudicando gravemente o ambiente.

“Há outra vida para além das montanhas de roupa no Gana ou no Quénia. Os dados e os resultados do trabalho de operadores sérios e responsáveis desmontam esta história parcial e catastrófica. Trabalhamos intensamente no mercado global de produtos têxteis em segunda mão e isto permite-nos conhecer a realidade no terreno: o vestuário usado é um recurso valioso e benéfico a muitos níveis. Todos perderemos se reprimirmos indiscriminadamente esta atividade com base na generalização infundada de que todo o vestuário usado é lixo”, assegura Andreia Barbosa.
Para onde vão as peças de roupa depositadas nos contentores de roupa em Portugal?
A Humana conta com 1019 contentores de recolha seletiva. No ano passado, recolheu 3.835 toneladas de materiais com potencial de reutilização e reciclagem. O número representa um aumento de 23,5% em relação ao ano anterior. Deu uma segunda vida a mais de 90%. Em função da qualidade das peças, o destino das mesmas foi as lojas de venda em segunda-mão (21%), reciclagem aproveitando a matéria-prima (29%) e exportação para África (41%).
A fração exportada para África é composta por peças perfeitamente reutilizáveis, mas que não encontram mercado na Europa, seja por questões estéticas, relacionadas com tendências de moda, ou porque o estado dos artigos não cumpre as expectativas dos consumidores.

Em 2024, 41% das peças que passaram pelo centro de triagem da Humana Espanha (parceira da Humana Portugal) destinaram-se a Angola, Guiné-Bissau, Malawi, Zâmbia e Moçambique. Neste último caso, a atividade exportadora começou nos anos 80 e hoje em dia mantêm-se, com o programa ADPP Vestuário, desenvolvido pela ADPP Moçambique, com o mesmo objetivo: fornecer roupa de qualidade a preços acessíveis a uma população com recursos escassos, gerando recursos para os programas de cooperação para o desenvolvimento que as organizações parceiras da Humana lideram em vários países africanos.
“É redutor e condescendente considerar que a exportação de roupa usada para África é unidirecional e uma imposição do Norte ao Sul, um vestígio de colonialismo”, assegura Andreia Barbosa, que acrescenta: “Os atores desta cadeia de valor são diversos: desde organizações de economia social, que recolhem roupa, até aos empreendedores que a vendem nos mercados, passando pelos intermediários comerciais (Alfândegas, transportadores, contabilistas…) e os consumidores locais. Além disso, nos mercados locais há muitos costureiros e alfaiates que reparam, modificam e prolongam a vida das peças de vestuário”.
Estudos recentes confirmam que o sector de roupa usada em África é um fator de dinamismo económico:
- “Situação Atual do Mercado de Vestuário em Segunda Mão em Moçambique: oportunidades e desafios”
- O impacto socio económico da roupa em segunda mão em África e na UE27+
- “Criação de emprego no sector da roupa de segunda mão em África: dados de Angola, Guiné-Bissau, Malawi, Moçambique e Zâmbia”
“Ver a exportação de produtos têxteis em segunda mão de uma forma diferente é uma excelente oportunidade para a reputação das marcas, uma vez que mecanismos fiáveis como os que promovemos contribuem ativamente para prolongar a vida dos produtos têxteis, que foram, sem dúvida, feitos para serem usados e não para serem eliminados ou reciclados quando ainda têm várias vidas pela frente”, concluí Andreia Barbosa.







