Ascensão (e queda?) da roupa de segunda mão
Artigo de opinião, Andreia Barbosa – gestora de circularidade da Humana People to People
Publicado no jornal Público, 5 de dezembro
Nunca a roupa de segunda mão foi tão popular. As transações entre particulares, potenciadas por plataformas online, explodiram nos últimos tempos: já todos conhecemos e usamos a Vinted, que foi campeã de vendas de vestuário em França em 2024. A Humana People to People, que opera a maior rede de lojas físicas de secondhand na Europa, registou vendas record nesse mesmo ano. Marcas conhecidas e cadeias de distribuição lançaram operações de revenda. A evolução do enquadramento regulatório na Europa não faria senão apoiar esta tendência.
A pegada ecológica do vestuário de segunda mão é até 70 vezes inferior à da roupa nova. Do ponto de vista ambiental, deveríamos celebrar a crescente popularidade da roupa usada. No entanto, este sucesso esconde um desastre iminente.
Demasiada roupa usada para a cadeia de valor
O problema é que há cada vez mais roupa a entrar nos circuitos globais de revenda. Por um lado, desde o início deste ano que é obrigatório recolher seletivamente os resíduos têxteis na UE. Por outro, a ultra-fast fashion asiática irrompeu com estrondo no mercado, inundando-o de roupa de baixa qualidade que é rapidamente descartada. Em paralelo, os custos operacionais da recolha e processamento de têxteis usados aumentaram. Custa cada vez mais recolher roupa que vale cada vez menos. Duas empresas alemãs, líderes no Europa, declararam insolvência e em Portugal o setor está deliberadamente a reduzir capacidade de recolha para tentar manter o equilíbrio financeiro. Em pleno desabrochar da segunda mão, a cadeia de valor global dos têxteis pós-consumo vive uma crise existencial: será que este modelo de negócio com comprovados benefícios socioambientais, que prevalece há décadas, tem futuro?
Responsabilizar os produtores não chega
A Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP) para os têxteis já foi aprovada em Bruxelas e deveria ser operacionalizada o quanto antes para equilibrar as contas das organizações de recolha e triagem. A RAP responsabiliza os produtores pelo fim de vida da roupa, exigindo-lhes um contributo financeiro para a gestão dos resíduos têxteis. É uma questão de justiça, e uma alavanca para salvar têxteis de incineração e aterro.
Mas a RAP é a parte fácil – ainda que em Portugal os poderes públicos tardem em operacionalizá-la. Difícil será criar uma verdadeira cultura da reutilização de vestuário. Nunca a segunda mão foi tão popular, mas a primeira mão continua a crescer. No melhor dos casos, uma peça de roupa usada previne apenas de forma relativa, não absoluta, a produção de uma peça de roupa nova. A ultra-fast fashion, que está a minar a sustentabilidade financeira da cadeia de valor dos têxteis pós-consumo, está também a subtrair os seus ganhos ambientais.
Intervir resolutamente no mercado
É por isso que as medidas que o governo francês se prepara para aplicar à ultra fast-fashion são tão importantes. Taxar severamente e proibir a publicidade são passos fundamentais para travar a proliferação do consumo negligente destes produtos, restabelecendo algum equilíbrio relativamente à segunda mão – e à moda de primeira mão produzida com outras exigências sociais e ambientais.
Recompensar as práticas circulares é outra forma de trabalhar este equilíbrio. Aplicar taxas reduzidas de IVA a produtos de segunda mão, serviços de reparação e matérias-primas secundárias é uma via possível – que está na agenda da UE.
No dia 17 de novembro, os ministros das Finanças da União Europeia decidiram pôr fim à isenção de direitos aduaneiros aplicada a encomendas de valor inferior a 150 euros provenientes de fora do bloco. E querem avançar com a medida já no início de 2026, dada a urgência do tema.
Passos como este têm de continuar a ser dados para travar práticas comerciais tão eficazes quanto nocivas. Se nada mudar, a segunda mão deixará de ser uma alternativa à fast fashion para se tornar uma vítima colateral – logo a seguir ao planeta.
Andreia Barbosa, Gestora de Circularidade da Humana People to People







