O designer de moda Dino Alves apresentará uma coleção em parceria com a Humana onde peças sem potencial de reutilização serão transformadas em criações artísticas ao estilo que lhe é habitual. No seu atelier, conversou com a organização de gestão têxtil sobre o desafio e desvendou alguns detalhes sobre o desfile de dia 14 de março no Pátio da Galé em Lisboa, para a ModaLisboa onde a colaboração será apresentada.
Como começou esta sua relação com o upycling?
Comecei em 1994 a fazer moda, usando um bocadinho esta disciplina, esta técnica do upcycling numa altura em que ainda nem sequer existia esta expressão, não tinha sido identificada. Na altura também não era tão urgente a questão do ambiente – nestes 25 anos o planeta piorou muito nesse aspeto. Já tinha essa consciência ambiental, mas confesso que era um pouco mais pela facilidade e também por uma questão de budget. (…)
O método em si, de agarrar numa peça que já tem uma história, e continuar a história dessa mesma peça, era uma coisa que me cativava. Quase que me auto intitulo o Rei do upcycling em Portugal. Fui o primeiro designer que assumiu esta forma de fazer moda. (…) Fazer peças de autor através do upcycling é que era uma novidade na altura. Foi como eu comecei.
Já nessa altura ia muito a feiras procurar peças?
Comecei a ir muito à feira da ladra, de tal forma que me tornei completamente viciado. Na altura estava na Cinemateca Portuguesa (…) e à terça-feira não almoçava e ia para a feira. Chegava cheio de sacos e depois não resistia, começava logo a cortar as mangas de uma camisa, a cortar a parte de cima. Às vezes basta olhar para um vestido muito datado, cortar um bocadinho a altura, fazer uma bainha diferente daquela que está, que atualiza logo a peça. Começava logo a fazer isso. Era uma espécie de um vício que sempre mantive.
Mais tarde comecei a sentir necessidade de ter as minhas peças, a minha coleção, (…) mas havia sempre uma peça ou outra que era uma espécie de talismã, ou seja, em cada desfile tinha sempre que ter uma peça que repescada de anos anteriores e usava sempre.
O meu método é um bocadinho específico – eu não desenho uma coleção do princípio ao fim – desenho as peças avulsas. É válido, cada um tem o seu método, mas para mim desenhar um croqui completo é limitar o processo criativo. (…) Os meus desfiles têm alguma coisa especial em relação aos outros, também por causa dessa metodologia. Tenho de fazer com que as peças joguem umas com as outas e o resultado é mais orgânico. Tenho a criatividade até ao último minuto. Às vezes, depois de ter as peças todas, chego à conclusão de que há partes de cima que não jogam com as de cima e vice-versa e tenho de dar a volta e fazer com que funcione. Às vezes tenho de fazer peças na véspera. É nessas alturas que eu vou repescar peças antigas e transformar para as incluir. E foi assim que eu comecei a fazer moda, numa altura em que era muito complicado porque as pessoas não sabiam onde me encaixar.
E sempre teve de explicar muito o seu método…
Eu fui logo muito aceite e o meu nome teve logo muita visibilidade. Esta coisa do upcycling chegou a um nivel que às vezes eu via as peças e já eram tão boas que eu nem lhes mexia. E as pessoas diziam “ele é criador de moda? É stylist? O que é que ele é?”. Em Portugal sempre houve muita necessidade de rotular as pessoas, têm de estar todas em caixinhas. Há muita gente que acha que eu comecei a fazer moda como stylist, ou seja, como algumas das peças já estavam feitas (…), aí é que as pessoas não entendiam mesmo.
Tinha de estar sempre a dar o exemplo do que o Marcel Duchamp fez com o urinol – chama-se readymade – estou apenas a elevar a peça, que está esquecida num escombro, num monte de roupa como na feira da ladra, e estou a eleger a peça dando-lhe numa categoria estética, apenas retirando-a daquele contexto e colocando-a noutro. Foi uma luta durante alguns anos, mas aqui estou.
Estou novamente a voltar ao início, mas já com outra maturidade estética e técnica. Em relação ao que fazia no início, em termos de upcycling, isto é outra coisa, é outro nível e espero que as pessoas no desfile sintam esse UP que eu dei às peças. É fundamental voltamos às nossas origens e porque a vida é feita de ciclos: a Isabel João, que está aqui a trabalhar comigo [no atelier], voltou na última ModaLisboa e tínhamos feito isto há mais de 25 anos. No ano passado, lancei-lhe o desafio e ela aceitou. A vida anda sempre às voltas, mas hoje sabemos muito mais tecnicamente e está-me a dar muito gozo fazer estas peças com muito mais sabedoria do que tinha na altura.
Como começou a sua relação com a Humana e o que achou do processo de seleção das peças?
Sempre fui cliente da Humana e uso imensa coisa, precisamente porque eu na altura tinha pânico de comprar em lojas massificadas. Desde miúdo sempre tive essa coisa de querer não ser um cordeirinho e de andar sempre atrás dos outros.
Sempre tive um pavor enorme de ir a um lado qualquer e estar outra pessoa vestida com a mesma roupa que eu. É um risco muito grande quando se compra em lojas de fast fashion, porque há muitas peças iguais. Na altura eu já comprava muito na feira da ladra ou em algumas lojas antigas que estavam a fechar. Depois comecei a ir à Humana, para comprar coisas para teatro porque faço muitos espectáculos, (…) e claro, sempre que vou comprar coisas para teatro ou para cinema, acabo por comprar sempre para mim.
A minha relação com a Humana já existia desde aí. Depois a Karacter, uma agência de modelos com quem participo sempre nos concursos para escolher novas caras, desafiou-me para fazer o último quadro, não com roupa minha, mas com styling meu feito com roupa da Humana (…). Fiz 20 looks que ficaram espectaculares e teve um impacto forte em termos de imagem, porque eram looks muito fora de uma silhueta normal e impacto a nível da sustentabilidade, para as pessoas perceberem que podem comprar peças na Humana e fazer uns looks super trendy. Depois mantivemos sempre o contacto e tiveram a elegância de, quando pensaram fazer alguma coisa na ModaLisboa, me virem dizer e eu disse logo “acho que tenho de ser eu”. Eu não quero deixar esta história em mãos alheias – se fui a primeira pessoa a fazer upcyling em Portugal e se está pela primeira vez a ser apresentado e assumido numa semana de moda, tenho de ser eu. E assim foi. Fomos a Madrid, ao grande Centro de Recolha Têxtil [Centro de Triagem de Leganés, Madrid, onde grande parte das doações portuguesas são triadas], e aquilo parece um hangar de um aeroporto.
O que achou daquilo que encontrou?
Foram 2 dias de muito esforço. Confesso que eu achei que ia a um grande armazém, mas como as lojas aqui, onde as peças já estavam separadas por calças, casacos, camisolas, camisas, em charriots, mas numa escala gigante e que depois dali escolhiam algumas peças para vir para Portugal e para outras lojas. Mas aquilo é mesmo o início do processo. São montes e montes de roupa, com várias estações/postos, onde estão cerca de 200 funcionários a selecionar as peças que estão em condições para ir para lojas e as que já não vão sequer para loja. Foram dois dias a mergulhar em roupa, selecionámos cerca de cento e uns quantos quilos, uns 10 ou 15 sacos e foi uma aventura. Mas gostei imenso de perceber que, tudo o que ali está, se não fosse este tipo de associações (…) ia tudo para a terra, para o mar, para o planeta. O desafio ainda foi maior porque as peças que selecionei são mesmo o resto do resto e isto tem de facto uma eficácia enorme. (…) No desfile, tudo ganha outra luz. Por isso é que é importante fazer estes desfiles: levar este conceito do upcycling para uma passerelle profissional, para se perceber que a sustentabilidade pode estar de mãos dadas com a moda.
O upcycling é um acto criativo tão válido – e às vezes mais difícil – como outro qualquer.
Entrevista de Ana Filipa Rosa e Carlota Cunha, Humana 2026.







