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Vender roupa doada? Logicamente!

Mar 16, 2023 | Ambiente, Cooperação

Em Portugal, existem várias organizações que recolhem roupa usada. Essa roupa é vendida em diferentes contextos – dentro e fora da Europa, a retalho ou por atacado, a comerciantes e a recicladores. A ideia de comercializar bens doados ainda faz confusão a muitas pessoas, que veem essa prática como um aproveitamento abusivo da generosidade alheia. Mas negócio é justamente o melhor que se pode fazer com o vestuário descartado.

Colocar roupa e calçado usados num dos contentores disponíveis para o efeito é um ato de generosidade. Mesmo que a motivação do doador não seja a da ajudar outrem – e sim a de criar espaço no armário – a escolha do depósito seletivo em detrimento do lixo indiferenciado denota preocupações ambientais e sociais. A partir daí, todos os processos que vão possibilitar a correta gestão das peças doadas custam dinheiro – a começar pela própria existência do contentor.

O fabrico e manutenção dos contentores têm custos. A recolha de roupa implica viaturas, combustíveis, técnicos. A triagem, quanto mais fina e especializada, mais trabalho manual requer. A expedição diária de largas toneladas de têxtil, por terra e por mar, tem custos. Estes processos são suportados por procedimentos administrativos e contabilísticos. Tudo isto consome recursos.

Na Humana Portugal abraçámos desde muito cedo um modelo comercial de gestão da roupa usada. Como é que uma organização humanitária veio a assumir contornos tão empresariais, e porquê? Para responder a essa pergunta, temos de recuar no tempo.

«Vendam a roupa», pediu o presidente

Nos anos 70, quando o movimento Humana People to People estava a dar os primeiros passos a partir do norte da Europa, onde nasceu, fazia-se recolha de roupa e outros bens de consumo para distribuir gratuitamente nos países africanos. A preocupação era a de ajudar, oferecendo o que fazia falta – alimentos, medicamentos, educação, e também vestuário. Mas a ideia de comercializar a roupa em vez de a doar impôs-se, a pedido dos próprios beneficiários. Em 1984, aquando de uma operação de entrega de bens em Moçambique, o então presidente, Samora Machel, sugeriu aos ativistas que a roupa fosse vendida – dessa forma os bens seriam mais judiciosamente aproveitados, evitando-se a sua apropriação por parte de «máfias» locais, ou o potencial abandono, e os proveitos poderiam ser canalizados para outras necessidades. Este episódio ficou para a história da Humana e inspirou uma mudança fundamental no modelo de funcionamento da organização.

O propósito da Humana sempre foi o desenvolvimento humano. Ao concluir que através da comercialização da roupa estava a gerar mais recursos para a cumprir essa missão, a Humana fez o que era lógico: profissionalizou-se e desenvolveu o negócio. A maior fatia do apoio prestado aos países em desenvolvimento provem de fundos governamentais; a roupa representa pouco mais de 20%. Mas este dinheiro é fundamental – confere autonomia, capacidade e flexibilidade à organização.

Não há circularidade sem viabilidade económica

Entretanto, o consumo de têxteis aumentou exponencialmente no mundo ocidental. Cresceu quase 400% desde o início do século XXI, como revela o documentário The True Cost (2015). Pela sua quantidade, a roupa descartada passou a constituir um problema ambiental – acumulando-se em lixeiras e aterros, alimentando incineradoras ou poluindo cursos de água. Criar e melhorar oportunidades de valorização comercial para estes têxteis – prosseguindo em paralelo esforços para reduzir o volume de produção e o seu potencial nocivo – é a melhor maneira de prevenir essas práticas.

O movimento Humana People to People desenvolveu-se através da criação de associações nos países beneficiários – em África existem 10 – que em permanência diagnosticam as necessidades, concebem programas adaptados e os implementam. 40% da roupa recolhida pelas várias Humanas na Europa e nos Estados Unidos é encaminhada para estes parceiros locais. Para eles, a roupa usada é uma fonte de rendimento que interessa maximizar, e isso só é possível se os artigos forem adaptados aos gostos e necessidades locais. É por isso que o processo de triagem da Humana é tão importante: ele garante que a roupa que chega aos nossos parceiros africanos é roupa viável naqueles mercados, vai alimentar pequenos negócios e dinamizar economicamente os territórios. O projeto ADPP Vestuário, em Moçambique, é um bom exemplo. A lógica comercial subjacente ao nosso modelo é a melhor garantia de que a roupa não vai acabar em lixeiras ou rios.

Loja de roupa usada em Maputo, inaugurada em fevereiro de 2022

Centro de triagem têxtil da Beira, operado pela ADPP Moçambique

 

Por outro lado, as diferentes organizações do universo Humana operam uma vasta rede de lojas secondhand na Europa. São 140 lojas, 19 das quais em Portugal. Cerca de 20% da roupa recolhida na Europa é comercializada através destes canais. Do ponto de vista ambiental, quanto menos quilómetros a roupa usada viajar, melhor. É também justo que os países que consomem os recursos sejam capazes de prolongar o seu ciclo de vida dentro das próprias fronteiras. E a venda em loja na Europa é a atividade que proporciona maior retorno financeiro no âmbito da gestão de roupa usada, o que significa que mais recursos podem ser canalizados para os projetos de cooperação internacional e apoio local da Humana, e mais investimentos podem ser realizados na melhoria dos processos de gestão do têxtil a montante.

Lojas secondhand, vetor de emprego e de moda responsável

A grande maioria dos gestores de têxtil usado não opera lojas. Essa é uma das especificidades da Humana. Mas todos sem exceção vendem a roupa recolhida – o vestuário alocado diretamente a famílias em situação de pobreza representa uma parte ínfima das quantidades geridas. Ou seja, os processos comerciais não são tão visíveis mas acontecem – não poderia ser de outra forma, porque há muito mais têxtil usado disponível do que aquele que a solidariedade em género pode absorver. A Humana tem desenvolvido os seus próprios canais de retalho porque, além das vantagens acima evocadas, as lojas são excelentes geradores de emprego, direto e indireto. No início de 2023 éramos 154 pessoas na Humana Portugal.

É notória a mudança de atitudes em relação ao consumo de roupa usada verificada nos últimos anos. A Forbes e os números das nossas vendas em 2022 são claros: a roupa em segunda mão já não é coisa de indigentes, é um produto apetecível. É positiva esta evolução do comportamento dos consumidores (ainda que estes não sejam imunes ao hiperconsumismo); falta ainda uma evolução semelhante por parte das marcas. Há muitos aspetos da indústria da moda que pedem transformações radicais, mas salientamos um que nos diz diretamente respeito: a resistência das marcas à comercialização dos seus artigos em lojas de segunda mão. Isso faz com que, por exemplo, os stocks de artigos não vendidos sejam geridos fora dos circuitos de retalho, ou até destruídos (o que a União Europeia vai ilegalizar). Além de diminuir a produção na fonte (o mais importante), as marcas devem abandonar o paradigma do protecionismo e permitir, de facto, a circulação desses recursos ao mais alto nível.

No atual status quo, fazer negócio com a roupa usada – gerindo-o responsavelmente – é a melhor maneira de salvar esses recursos e prevenir danos ambientais. Na Humana, é com orgulho e satisfação que fazemos dinheiro com roupa doada – porque esse valor se traduz em benefícios sociais e ambientais.