Porque desapareceu o meu contentor de roupa usada?
Artigo de opinião, Sónia Almeida – promotora nacional da Humana em Portugal
Publicado no jornal Expresso, 23 de fevereiro
Desde 2025 que a separação dos resíduos têxteis se tornou obrigatória. Isto significa que “todos os municípios devem assegurar soluções de recolha seletiva, reforçando a disponibilidade de contentores específicos e outros pontos de entrega de resíduos têxteis”, diz a APA. Mas há hoje menos pontos de recolha do que há um ano. É essencial compreender este retrocesso, e identificar responsabilidades, a bem da circularidade dos recursos têxteis.
No município da Moita, região de Setúbal, desapareceram dezenas de contentores para depósito de roupa e calçado usados. Tinham sido instalados há menos de dois anos pela Humana, que ganhou o concurso público para a sua colocação. O que lhes aconteceu?
Alguns de vós terão ouvido dizer que, desde 2025, os municípios são obrigados a recolher seletivamente os resíduos têxteis. Seria de esperar que, perante esta obrigatoriedade, os contentores de roupa se generalizassem pelo país. Mas é o contrário que está a acontecer. O exemplo da Moita é um entre vários, envolvendo tanto a Humana como outros operadores de têxteis usados.
Até 2025, a recolha de roupa usada era uma atividade que dependia exclusivamente da iniciativa privada. Os municípios selecionavam um operador e este contentorizava o território, pagando taxas de ocupação do espaço público ou uma compensação por tonelada de roupa recolhida. A venda do têxtil nos diferentes mercados de reutilização e reciclagem cobria os custos da recolha e processamento, assim como as taxas municipais. E, de forma geral, gerava ainda algum lucro, que no caso da Humana era direcionado para os projetos de desenvolvimento sustentável que constituem a sua missão.
Mas nos últimos anos, a chamada ultra fast-fashion veio tornar a moda ainda mais descartável. Em paralelo, na China e noutras regiões do mundo, emergiu uma classe média que agora pode renovar o guarda-roupa e descartar o que já não usa, como os Europeus. Há quantidades crescentes de têxtil usado a entrar no mercado global, e a sua qualidade média é inferior.
Esta mudança estrutural (combinada com constrangimentos logísticos, subida dos preços da energia, inflação) criou uma situação de crise. Os custos de recolher e processar roupa aumentaram, e os retornos diminuíram, desequilibrando a balança. A Humana já passou por situações difíceis, afrontando-as criativamente (nomeadamente com a sua rede de lojas secondhand, que foram modernizadas e se tornaram cada vez mais populares), mas hoje o cenário é outro.
Hoje temos legislação europeia que diz que quem coloca produtos têxteis no mercado é responsável pelo seu fim de vida. Temos um regulamento de resíduos que obriga os municípios a recolher seletivamente a roupa usada. Estas leis não surgem por acaso – partem da constatação de que há recursos valiosos que estão a ser desaproveitados porque não estão montados sistemas com capacidade suficiente para os gerir. Não faz sentido que entidades privadas como a Humana continuem a assegurar sozinhas aquilo que a lei diz ser da responsabilidade dos produtores e dos municípios. E com a atual crise do mercado global de têxtil usado – que nos últimos dois anos já levou empresas históricas do setor à insolvência – a Humana, e outros como ela, têm forçosamente que repensar as suas estratégias.
Foi por isso que a Humana suspendeu ou restringiu algumas das suas parcerias e retirou contentores das ruas.
Tornar o setor da moda mais circular, com produtos duráveis, longos ciclos de vida potenciados pela reutilização, matéria-prima reciclada, desaceleração do consumo, é um desafio enorme, que tem de ser abordado em muitas frentes. Para já, enquanto se constrói em Portugal o desenho legal da Responsabilidade Alargada do Produtor, seria bom reconhecer que esta mesma responsabilidade está hoje a ser assumida por entidades como a Humana. E que por isso não faz sentido as autarquias reclamarem taxas de ocupação de espaço público, ou esperarem a contentorização e recolha a custo zero quando o retorno financeiro previsto não chega para cobrir os gastos operacionais.
Naturalmente, compreendemos que os recursos das autarquias sejam limitados. É também por isso que alertamos publicamente para esta situação, esperando que a mensagem mobilize os Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos, o Governo, e que juntos possamos chegar a soluções.
Somos uma empresa social que sempre se orgulhou de ser capaz de apoiar projetos de desenvolvimento com recursos financeiros próprios, gerados por uma atividade comercial gerida com profissionalismo e ambição. Não pedimos assistência: pedimos a justa distribuição das responsabilidades, para levar a cabo um desígnio que é de todos: salvar recursos e alinhar a nossa economia com a capacidade do planeta.
Sónia Almeida, Promotora Nacional da Humana em Portugal







